TEMPO COMUM. NONA SEMANA. SEXTA-FEIRA

– Presença contínua do Anjo da Guarda.
– Devoção. Ajuda na vida ordinária e no apostolado
– Recorrer à sua ajuda na vida interior.

I. ALÉM DA CRIAÇÃO do mundo visível e do homem, Deus quis também difundir a sua bondade chamando à existência os anjos, criaturas de uma perfeição altíssima.

Espíritos puros – sem composição de matéria ou corpo –, os anjos são os seres mais perfeitos da criação. Por um lado, a sua inteligência atua com uma simplicidade e agudeza que estão acima do alcance do homem, e a sua vontade é mais perfeita que a humana. Por outro lado, são criaturas que, tendo já sido elevadas à visão beatífica, vêem Deus face a face. Esta maior excelência, por natureza e por graça, constitui os anjos como ministros ordinários de Deus e dá-lhes capacidade para influírem sobre os homens e sobre os seres inferiores. “O nome que a Sagrada Escritura lhes atribui indica que o que mais conta na Revelação acerca deles é a verdade sobre as suas tarefas com relação aos homens: anjo quer dizer mensageiro1.

Além de intervirem em acontecimentos singulares da história, os anjos atuam constantemente na vida pessoal dos homens, pois “a providência divina deu aos anjos a missão de guardarem o gênero humano e socorrerem cada homem”2. São mais uma prova da bondade divina para conosco, e por isso nos socorrem, animam, confortam, e nos chamam ao bem, à confiança e à serenidade.

O Antigo Testamento contém um livro inteiro dedicado a relatar a ajuda de um arcanjo – São Rafael – à família de Tobias3. Sem dar a conhecer a sua condição, o arcanjo acompanha o jovem Tobias numa viagem longa e difícil, presta-lhe serviços e dá-lhe conselhos inestimáveis. Ao termo da viagem, ele mesmo se apresenta: Eu sou Rafael, um dos sete anjos que apresentam as orações dos justos e têm acesso à majestade do Santo4. O Senhor conhecia passo a passo a conduta honrada daquela família: Quando tu oravas […], eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Quando enterravas os mortos, eu também te assistia. Quando com diligência os sepultavas […], eu estava contigo5.

A nossa vida também é um caminho longo e difícil, e, no final dele, quando com a ajuda da graça estivermos na casa do nosso Pai-Deus, o nosso Anjo da Guarda também poderá dizer-nos: “Eu estava contigo”, pois os Anjos da Guarda têm por missão ajudar cada homem a alcançar o fim sobrenatural a que é chamado por Deus. Eu mandarei um Anjo adiante de ti – disse o Senhor a Moisés – para que te defenda no caminho e te faça chegar ao lugar que te destinei6.

Agradeçamos a Deus que tenha querido confiar-nos a estes príncipes do Céu tão inteligentes e eficazes na sua ação, e manifestemos freqüentemente a estima que temos por eles.

II. OS ATOS DOS APÓSTOLOS narram alguns episódios que nos mostram a solicitude com que os anjos acompanham os homens: é a intervenção de um anjo na libertação dos Apóstolos da prisão, sobretudo na de Pedro, ameaçado de morte por Herodes; ou a de outro na conversão de Cornélio e da sua família; ou a de outro ainda, que leva o diácono Filipe até o ministro da rainha Candace, no caminho de Jerusalém a Gaza7.

O Papa João Paulo II cita estes episódios a título de exemplo na sua catequese sobre os anjos. E comenta: “Compreende-se assim como se pôde formar na consciência da Igreja a persuasão sobre o ministério confiado aos anjos em favor dos homens. Por isso a Igreja confessa a sua fé nos Anjos da Guarda, venerando-os na liturgia através de uma festa especial e recomendando o recurso à sua proteção mediante uma oração freqüente, como na invocação ao «Santo Anjo». Esta oração parece entesourar as belas palavras de São Basílio: «Todo o fiel tem junto de si um anjo como tutor e pastor, para levá-lo à vida»”8.

A oração ao “Santo Anjo”, que tantos cristãos aprenderam dos lábios de seus pais, diz assim, com uma ou outra variante: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, hoje e sempre me rege e guarda, governa e ilumina. Amém. É uma oração breve, que é de muita ajuda na meninice, e que continua a fazer-nos bem quando já se passou uma boa parte da nossa vida e nem por isso deixamos de ter a mesma necessidade de proteção e amparo.

Se fizermos o propósito de invocar mais o Anjo da Guarda durante o dia de hoje, não deixaremos de notar a sua presença e de receber muitas graças e ajudas por seu intermédio. Além do seu auxílio espiritual, poderemos contar com a sua colaboração e o seu apoio nas pequenas necessidades da vida cotidiana: encontrar alguma coisa que não nos lembramos de onde a pusemos, chegar a tempo a uma entrevista marcada para uma hora de muito trânsito, conseguir que uma pessoa importante nos receba, etc., etc… Em tudo aquilo que se ordena para a glória de Deus – e todas as coisas retas podem ser ordenadas e dirigidas para a glória de Deus –, contamos com a ajuda do nosso Anjo da Guarda9. E podemos também relacionar-nos com os Anjos da Guarda dos nossos amigos, particularmente na tarefa de aproximá-los de Deus ou de evitar que se afastem dEle.

A piedade cristã tem considerado desde tempos muito antigos que há anjos adorando continuamente Jesus Sacramentado nos lugares em que está reservada a Santíssima Eucaristia. Apoiando-se na piedade popular, a arte cristã tem representado muitas vezes os anjos reunidos em torno dos ostensórios, com o rosto coberto pelas asas porque se consideram indignos de estar na presença do Senhor, tão grande é a sua majestade! Devemos pedir-lhes que nos ensinem a tratar Jesus, realmente presente no Sacrário, com a maior reverência e amor que possamos.

III. APESAR DA PERFEIÇÃO da natureza espiritual, os anjos não têm o poder e a sabedoria de Deus; não podem, por exemplo, ler o interior das consciências. Por isso, é necessário que lhes demos a conhecer o que precisamos deles em cada ocasião. Não são necessárias palavras, mas é necessário que nos dirijamos a eles com a mente, pois a sua inteligência está capacitada para conhecer o que imaginamos e pensamos explicitamente. Daí a razão por que se recomenda que fomentemos uma profunda amizade com o Anjo da Guarda.

O relacionamento com o Anjo da Guarda é menos palpável do que aquele que se tem com um amigo da terra, mas a sua eficácia é muito maior. Os seus conselhos vêm de Deus e calam mais fundo que a voz humana; a sua capacidade de ouvir-nos e compreender-nos é muitíssimo maior que a do melhor amigo; não só porque a sua permanência ao nosso lado é contínua, mas porque penetra muito mais profundamente naquilo de que precisamos ou que exprimimos.

É muito valiosa a assistência que o Anjo da Guarda nos pode prestar na vida interior, pois facilita a nossa piedade, orienta-nos na oração mental e nas orações vocais, e move-nos particularmente a procurar a presença de Deus por meio de atos freqüentes. Se o invocarmos, ele porá no trilho certo a nossa imaginação, sempre que esta nos dificulte o trabalho ou a oração. Sugerir-nos-á de algum modo propósitos para melhorarmos, ou uma maneira simples e prática de concretizarmos algum bom desejo que se revelava inoperante. Teremos sempre o recurso de pedir-lhe que se dirija em nosso nome a Deus, dizendo-lhe o que nós, na nossa inépcia, não sabemos expressar na nossa oração pessoal10. À hora de abrirmos a alma ao diretor espiritual, podemos pedir-lhe que nos sugira as palavras adequadas para vivermos plenamente a simplicidade e a sinceridade, depois de fazermos junto com ele o exame de consciência. E seremos mais serenos se nos lembrarmos dele nas nossas fraquezas.

A missão do Anjo da Guarda começa na terra, mas terá o seu pleno cumprimento no Céu, porque a sua amizade está chamada a perpetuar-se pelos séculos sem fim. É uma missão tão íntima e pessoal que os vínculos de amizade sobrenatural que criou na terra permanecerão no Céu. Ele será o nosso grande aliado no momento em que prestarmos contas a Deus da nossa vida.

“Será ele quem, no teu juízo particular, recordará as delicadezas que tiveres tido com Nosso Senhor, ao longo da tua vida. Mais ainda: quando te sentires perdido pelas terríveis acusações do inimigo, o teu Anjo apresentará aqueles impulsos íntimos – talvez esquecidos por ti mesmo –, aquelas manifestações de amor que tenhas dedicado a Deus Pai, a Deus Filho, a Deus Espírito Santo.

“Por isso, não esqueças nunca o teu Anjo da Guarda, e esse Príncipe do Céu não te abandonará agora, nem no momento decisivo”11. Será o nosso melhor amigo aqui na terra e mais adiante na eternidade.

(1) João Paulo II, Audiência geral, 30-VII-1986; (2) Catecismo Romano, IV, 9, 4; (3) Tob 11, 5-17; cfr. Primeira leitura da Missa da sexta-feira da nona semana do TC, ano ímpar; (4) Tob 12, 15; (5) cfr. Tob 12, 12-14; (6) Êx 23, 20; (7) cfr. At 5, 18-20; 10, 3-8; 8, 26 e segs.; (8) João Paulo II, Audiência geral, 6-VIII-1986; (9) cfr. G. Hubert, O meu Anjo caminhará à tua frente, 2ª ed., Prumo-Rei dos Livros, Lisboa, 1995, pág. 155; (10) cfr. Josemaría Escrivá, Forja, n. 272; (11) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 693.

Fonte: Livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal