TEMPO COMUM. DÉCIMA SEGUNDA SEMANA. QUINTA-FEIRA

– Os frutos da Missa. O sacrifício eucarístico e a vida ordinária do cristão.

I. O CONCÍLIO VATICANO II “recorda-nos que o sacrifício da cruz e a sua renovação sacramental na Missa constituem uma mesma e única realidade, à exceção do modo de oferecer […], e que, conseqüentemente, a Missa é ao mesmo tempo sacrifício de louvor, de ação de graças, propiciatório e satisfatório1.

Os fins que o Salvador deu ao seu sacrifício na Cruz costumam sintetizar-se nesses quatro, e alcançam-se em medidas e modos diversos. Os fins que se referem diretamente a Deus, como a adoração ou louvor e a ação de graças, produzem-se sempre infalível e plenamente no seu valor infinito, mesmo sem o nosso concurso, ainda que nenhum fiel assista à celebração da Missa ou assista distraído. Cada vez que se celebra o sacrifício eucarístico, louva-se a Deus Nosso Senhor sem limites, e oferece-se uma ação de graças que o satisfaz plenamente. Esta oblação, diz São Tomás, agrada mais a Deus do que o ofendem todos os pecados do mundo2, pois o próprio Cristo é o Sacerdote principal de cada Missa e também a Vítima que se oferece em todas elas.

Já os outros dois fins do sacrifício eucarístico (propiciação e de petição), que revertem em favor dos homens e que se chamam frutos da Missa, nem sempre atingem efetivamente a plenitude dos efeitos que poderiam alcançar. Os frutos de reconciliação com Deus e de obtenção do que pedimos à sua benevolência poderiam ser também infinitos, porque se baseiam nos méritos de Cristo, mas na realidade nunca os recebemos nesse grau porque nos são aplicados de acordo com as nossas disposições pessoais. Daí a importância de melhorarmos continuamente a nossa participação pessoal no Sacrifício do altar, unindo-nos intimamente ao próprio louvor, ação de graças, expiação e impetração de Cristo Sacerdote.

Neste sentido, o rito externo da Missa (as ações e cerimônias), ao mesmo tempo que significam o sacrifício interior de Jesus Cristo, são também sinal da entrega e da oblação dos fiéis unidos a Ele3: exigem e simultaneamente fomentam a entrega de todo o nosso ser, tanto durante a celebração como ao longo da vida: “Todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas – indica o Concílio Vaticano II –, bem como a vida conjugal e familiar, o trabalho cotidiano, o descanso do corpo e da alma, se praticados no Espírito, e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se «hóstias espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo» (1 Pe 2, 5), hóstias que são piedosamente oferecidas ao Pai com a oblação do Senhor na celebração da Eucaristia”4. Todas as nossas obras e a própria vida adquirem um novo valor, porque tudo passa então a girar em torno da Santa Missa, que se converte no centro do dia.

– A nossa participação na Santa Missa deve ser oração pessoal, união com Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima.

II. PARA OBTERMOS CADA DIA mais frutos da Santa Missa, a nossa Mãe a Igreja quer que assistamos a ela não como “espectadores estranhos e mudos”, mas tratando de compreendê-la cada vez melhor, nos seus ritos e orações, participando da ação sagrada de modo consciente, piedoso e ativo, pondo a alma em consonância com as palavras que dizemos e colaborando com a graça divina5.

Devemos, pois, prestar atenção aos diálogos, às aclamações, e viver conscientemente esses elementos externos que também fazem parte da liturgia: as posições do corpo (de joelhos, em pé, sentados), a recitação ou canto de partes comuns (Glória, Credo, Santo, Pai Nosso…), etc.

Muitas vezes, ser-nos-á bastante útil ler no nosso missal as orações do celebrante. Como também o esforço por viver a pontualidade – chegando pelo menos uns minutos antes do começo –, nos ajudará a preparar-nos melhor e será uma atenção delicada com Cristo, com o sacerdote que celebra a Missa e com os que já estão na igreja. O Senhor agradece que também nisto sejamos exemplares. Por acaso não seríamos pontuais se se tratasse de uma audiência importante? Não há nada mais importante no mundo do que a Santa Missa.

Além da participação externa, devemos fomentar a participação interna, pela união com Jesus Cristo que se oferece a si mesmo. Esta participação consiste principalmente no exercício das virtudes: em atos de fé, de esperança e de amor, de humildade, de contrição, ao longo das orações e nos momentos de silêncio: antes do “Confesso a Deus todo-poderoso”, devemos realmente sentir todo o peso dos nossos pecados; no momento da Consagração, podemos repetir, com o Apóstolo São Tomé, aquelas suas palavras cheias de fé e de amor: Meu Senhor e meu Deus, ou outras que a piedade nos sugira.

A nossa participação na Santa Missa deve ser, pois, e antes de mais nada, oração pessoal, o ponto culminante do nosso diálogo habitual com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Diz Paulo VI que esse espírito de oração, “na medida em que for possível a cada um, é condição indispensável para uma participação litúrgica autêntica e consciente. E não somente condição, mas também seu fruto e conseqüência […]. É necessário, hoje e sempre, mas hoje mais do que nunca, manter um espírito e uma prática de oração pessoal… Sem uma íntima e contínua vida interior de oração, de fé, de caridade pessoal, não podemos continuar a ser cristãos; não podemos participar de uma maneira útil e proveitosa no renascimento litúrgico; não podemos dar testemunho eficaz daquela autenticidade cristã de que tanto se fala; não podemos pensar, respirar, atuar, sofrer e esperar plenamente com a Igreja viva e peregrina… Dizemos a todos vós: orai, irmãos – orate, fratres. Não vos canseis de tentar que surja do fundo do vosso espírito, com o clamor mais íntimo, esse Tu! dirigido ao Deus inefável, a esse misterioso Outro que vos observa, espera e ama. E certamente não vos sentireis desiludidos ou abandonados, antes experimentareis a alegria nova de uma resposta embriagante: Ecce adsum, eis que estou contigo”6.

De modo muito particular, temos Deus junto de nós e em nós no momento da Comunhão, em que a participação na Santa Missa chega ao seu momento culminante. “O efeito próprio deste sacramento – ensina São Tomás de Aquino – é a conversão do homem em Cristo, para que diga com o Apóstolo: Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim7.

– Preparação para assistir à Missa. O apostolado e o sacrifício eucarístico.

III. ANTES DA SANTA MISSA, devemos preparar a nossa alma para nos aproximarmos do acontecimento mais importante que se dá cada dia no mundo. A Missa celebrada por qualquer sacerdote, no lugar mais recôndito, é o evento mais importante que acontece naquele instante sobre a terra, ainda que não esteja presente uma única pessoa sequer. É a coisa mais grata a Deus que os homens lhe podem oferecer; é a ocasião por excelência de agradecer-lhe os muitos benefícios que dEle recebemos, de pedir-lhe perdão por tantos pecados e faltas de amor… e de solicitar-lhe tantas coisas espirituais e materiais de que necessitamos.

“Quem não tem coisas a pedir? Senhor, esta doença… Senhor, essa tristeza… Senhor, essa humilhação que não sei suportar por teu amor… Queremos o bem, a felicidade e a alegria das pessoas da nossa casa; oprime-nos o coração a sorte dos que padecem fome e sede de pão e de justiça, dos que experimentam a amargura da solidão, dos que, no fim dos seus dias, não recebem um olhar de carinho nem um gesto de ajuda.

“Mas a grande miséria que nos faz sofrer, a grande necessidade a que queremos pôr remédio é o pecado, o afastamento de Deus, o risco de que as almas se percam para toda a eternidade. Levar os homens à glória eterna no amor de Deus: esta é a nossa aspiração fundamental ao participarmos da Missa, como foi a de Cristo ao entregar a sua vida no Calvário”8. Desta maneira, também o nosso apostolado se integra na Santa Missa e dela sai fortalecido.

Os minutos de ação de graças depois da Missa completarão esses momentos tão importantes do dia, e terão uma influência direta no trabalho, na família, na alegria com que tratamos a todos, na segurança e na confiança com que vivemos o resto do dia. A Missa vivida assim nunca será um ato isolado; será alimento de todas as nossas ações e lhes dará umas características peculiares.

E na Santa Missa encontramos sempre a nossa Mãe, Santa Maria. “Como poderíamos tomar parte no Sacrifício do altar sem recordar e invocar a Mãe do Sumo Sacerdote e Mãe da Vítima? Nossa Senhora participou tão intimamente do sacerdócio do seu Filho, durante a sua vida na terra, que devia ficar para sempre unida ao exercício desse sacerdócio. Assim como esteve presente no Calvário, está presente na Missa, que é prolongamento necessário da Cruz do Senhor. No Calvário, Nossa Senhora assistia o seu Filho que se oferecia ao Pai; no altar, assiste a Santa Igreja que se oferece com a sua Cabeça. Ofereçamos Jesus pelas mãos de Nossa Senhora9. Procuremos ter presente a nossa Mãe Santa Maria durante a Santa Missa, e Ela nos ajudará a participar da imolação do seu Filho com outra piedade e recolhimento.

(1) Missal Romano, Ordenação geral, Proêmio, 2; (2) cfr. São Tomás, Suma Teológica, III, q. 48, a. 2; (3) cfr. Pio XII, Enc. Mediator Dei, 20-XI-1947; (4) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 34; (5) cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossanctum Concilium, 11, 48; (6) Paulo VI, Alocução, 14-VIII-1969; (7) São Tomás, In IV Sent., d. 12, q. 2, a. 1; (8) Josemaría Escrivá, Amar a Igreja, pág. 79-80; (9) P. Bernadot, Nossa Senhora na minha vida, Agir, Rio de Janeiro, 1946, pág. 180.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.