TEMPO COMUM. DÉCIMA TERCEIRA SEMANA. QUARTA‑FEIRA

– O Senhor apresenta‑se, por vezes, de maneira diferente de como o esperávamos.
– Desprendimento, para vermos Jesus e para cumprirmos a sua vontade quando não coincide com a nossa.
– Olhar com fé para as circunstâncias desfavoráveis e descobrir nelas a presença do Senhor.

I. JESUS CHEGOU à outra margem do lago, à região dos gadarenos, terra de gentios1; talvez procurasse um lugar afastado para descansar com os seus discípulos. Ali curou dois endemoninhados que saíram ao seu encontro. Perto do lugar pastava uma vara de porcos; os demônios pediram‑lhe que, se os expulsava desses homens atormentados, os enviasse àqueles porcos. E o Senhor permitiu‑o. Eles saíram e foram‑se para os porcos, e toda a vara se lançou ao mar barranco abaixo, perecendo nas águas. Os porqueiros fugiram e, indo à cidade, contaram tudo, especialmente o que se passara com os endemoninhados. E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus, e, vendo‑o, rogaram‑lhe que se retirasse dos seus limites.

Rogaram‑lhe que se retirasse daquele lugar. Foi uma grande oportunidade perdida por esses homens; haviam tido o próprio Deus entre eles, e não souberam vê‑lo. Possivelmente, o Senhor nunca mais passou por aqueles lugares. Tinham‑no tido tão perto!, e pediram‑lhe que se afastasse! Que pouco hospitaleiro é às vezes o mundo para com o seu Senhor! Com freqüência, para muitos, o que conta são os bens materiais, e não é difícil ver como se tenta construir uma sociedade em que o Senhor não esteja presente; não lhe deixam lugar, “como se Deus não merecesse nenhum interesse no âmbito dos desígnios operativos e associativos do homem”2.

Exclui‑se Aquele que dá sentido a tudo. O Senhor ilumina a alegria e o sofrimento, a vida e a morte, o trabalho… E sem Ele, nada vale a pena. “Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua existência: é o fenômeno chamado ateísmo”3. No fundo de muitas atitudes que rejeitam ou excluem a verdade sobrenatural, encontra‑se um radical materialismo prático que impede de ver a ação de Deus naquilo que nos rodeia.

Nós dizemos a Jesus que queremos colocá‑lo no cume de todas as tarefas humanas, mediante um trabalho profissional consciencioso; que queremos a sua presença na nossa vida, na família, uma presença que dê sentido ao que somos e ao que possuímos: à nossa inteligência, ao nosso coração, à amizade, aos amores limpos e nobres de cada um. Dizemos‑lhe que queremos permanecer vigilantes, como a sentinela, para dar‑lhe entrada na nossa alma, mesmo que se apresente de uma maneira inesperada.

II. AQUELES GENTIOS, apesar do milagre relatado pelos porqueiros e de verem livres e sãos os dois endemoninhados, não quiseram receber Jesus. Quantos bens não teriam recebido em suas casas, e sobretudo nas suas almas! Mas estavam cegos para os bens espirituais. O mesmo acontece a muitos nos nossos dias: têm os seus projetos para serem felizes, e freqüentemente olham para Deus simplesmente como alguém que os ajudará a realizá‑los. “O verdadeiro estado de coisas é completamente ao contrário. Deus tem os seus planos para a nossa felicidade, e está à espera de que o ajudemos a Ele a realizá‑los. E que fique claro quenós não podemos melhorar os planos de Deus”4.

Alguns cristãos, por estarem excessivamente apegados às suas idéias e caprichos, dizem a Jesus que se retire das suas vidas, justamente quando estava mais perto e quando mais precisavam dEle: numa doença, numa contrariedade…, quando perdem uns bens materiais que provavelmente era necessário que perdessem para receberem o Bem supremo, que vem, muitas vezes, por caminhos diferentes dos que eles desejavam. Talvez o esperassem no triunfo, e apresenta‑se no fracasso ou na ruína; não no fracasso produzido pela indolência, pela precipitação ou pela imprudência, mas no fracasso que chega quando, no nosso entender, nos tínhamos servido de todos os meios humanos e sobrenaturais possíveis para acertar.

Com que freqüência a lógica de Deus não coincide com a lógica dos homens! É o momento de abraçar a vontade divina: “Tu o queres, Senhor?… Eu também o quero!”5 Quantas vezes, diante de contratempos que nem nos passavam pela cabeça, não teremos feito nossa essa oração, de mil modos repetida!

Já se disse que “o plano de Deus é de uma só peça”, isto é, que não existem peças soltas e sem sentido. Tudo o que nos parece contraditório e inexplicável enquadra‑se no plano divino, ainda que só venhamos a sabê‑lo mais tarde ou na outra vida. Do que não há dúvida é de que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus6. Mas, para o descobrirmos pessoalmente, para descobrirmos a vontade de Deus em todos os acontecimentos da vida, incluídos os menos gratos, para seguirmos Cristo de perto em todas as circunstâncias, “temos que estar seriamente desprendidos de nós mesmos: dos dons da inteligência, da saúde, da honra, das ambições nobres, dos triunfos, dos êxitos.

“Refiro‑me também – porque até aí deve chegar a tua decisão – a esses anseios límpidos com que procuramos exclusivamente dar toda a glória a Deus, e louvá‑lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara e precisa: «Senhor, só quero isto ou aquilo se for do teu agrado, porque, senão, para que me interessa?» Assestamos assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade, que serpenteiam por todas as consciências; e ao mesmo tempo alcançamos a verdadeira paz na nossa alma, com um desprendimento que acaba na posse de Deus, cada vez mais íntima e mais intensa”7.

É necessário purificar o coração dos amores desordenados – do amor próprio desordenado, do excessivo apego aos bens que se possuem ou que se desejaria possuir, das idéias e opiniões próprias, dos projetos que se fez acerca da própria felicidade… – para confiar mais no nosso Pai‑Deus. Então poderemos ver claramente e interpretar acertadamente todos os acontecimentos, descobrindo sempre por detrás deles a presença amável de Jesus.

III. SE NÃO HOUVESSE OCORRIDO aquela hecatombe de porcos, os porqueiros provavelmente não teriam descido à cidade e os seus habitantes não teriam sabido que Jesus estava ali, tão perto. Se a mulher que encontrou o Mestre em Cafarnaum não tivesse estado doente durante tantos anos e não tivesse gasto todos os seus haveres com os médicos, não se teria aproximado de Jesus para tocar‑lhe a fímbria do manto e nunca teria ouvido aquelas palavras consoladoras, as mais importantes da sua vida, que bem valeram todos os sofrimentos e os gastos inúteis… O que nos parece um mal, talvez não o seja tanto; somente o pecado é um mal absoluto, e dele – com amor, com humildade e contrição – pode‑se tirar o saborosíssimo fruto de um novo encontro com Cristo8, em que a alma rejuvenesce.

Por trás dos males (doença, cansaço, dor, ruína…), encontramos sempre Jesus que nos sorri e nos estende a mão para nos ajudar a superar essas situações e a crescer interiormente. Os males desta vida são um contínuo apelo ao nosso coração, que nos diz: O Mestre está aqui e chama‑te!9 Mas se estamos mais apegados aos nossos projetos, à saúde, à vida… do que à vontade de Deus – a princípio, por vezes misteriosa e incompreensível –, só veremos na desgraça a perda de um bem relativo e parcial que talvez tenhamos convertido em absoluto e definitivo. Que enorme erro se nesses momentos não soubermos compreender que Jesus nos visita!

Com uma lógica diferente da nossa, o Senhor vai dispondo os acontecimentos para que, com dor algumas vezes e com gosto outras, nos desprendamos de tudo para que Ele invada toda a nossa existência. Temos que pensar muitas vezes na atuação íntima de Deus em nós, pois Ele dispõe até a menor circunstância para que sejamos felizes, para facilitar‑nos o desprendimento de nós mesmos, dos nossos projetos…, para que sejamos santos. Aos olhos de Deus, “uma só alma tem mais valor do que todo o universo, e as maravilhas que Deus realiza no íntimo das nossas vidas são, de longe, mais extraordinárias que todos os esplendores do cosmos material”10.

Se aqueles gentios tivessem compreendido quem estava diante deles, se tivessem captado o milagre realizado com os dois homens libertados do demônio, que importância teriam dado à perda econômica de uns porcos? Teriam rendido graças a Deus por ela, teriam convidado Jesus para suas casas e organizado uma festa porque o Mestre estava com eles e porque tinham recuperado dois homens.

Se olharmos com fé para as pequenas ou grandes desgraças da vida, acabaremos sempre por dar graças por elas: pela doença inesperada quando tínhamos tanto que fazer, pela humilhação que sofremos vinda de quem menos esperávamos, pela perda do emprego quando parecia que tínhamos conquistado a confiança dos diretores… Obrigado, Senhor – diremos na intimidade do nosso coração –, porque te apresentaste, ainda que tenha sido por onde menos te esperava! Peçamos à Virgem, que experimentou tantos contratempos, aflições e dores, que nos ensine a não perder essas oportunidades de encontrar Jesus no meio das circunstâncias humanamente mais desfavoráveis.

(1) Mt 8, 28‑34; (2) São João Paulo II, Exort. Apost. Reconciliatio et Paenitentia, 2‑XII‑1984, 14; (3) ib.; (4) E. Boylan, Amor Sublime, Apostolado da Imprensa, Porto, 1953, pág. 27; (5) cfr. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 762; (6) Rom 8, 28; (7) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1978, n. 114; (8) cfr. São Bernardo, Sobre a falácia e brevidade da vida, 6; (9) Jo 11, 28; (10) M. M. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, Palabra, Madrid, 1983, pág. 249.

Fonte: Livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.