O dom do entendimento

— Mediante este dom, chegamos a um conhecimento mais profundo dos mistérios da fé. 

CADA PÁGINA da Sagrada Escritura é uma manifestação da solicitude com que Deus se inclina para nós a fim de nos guiar para a santidade. O Senhor mostra-se no Antigo Testamento como a verdadeira luz de Israel, sem a qual o povo se extravia e tropeça na escuridão. Os grandes personagens do Antigo Testamento dirigem-se constantemente a Javé pedindo-lhe que os conduza nas horas difíceis. Dá-me a conhecer os teus caminhos pede Moisés para guiar o povo até a Terra da Promissão. Sem o ensinamento divino, sente-se perdido. E o rei Davi suplica: Ensina-me a observar a tua lei e a guardá-la de todo o coração2.

Jesus promete o Espírito de verdade, que terá a missão de iluminar toda a Igreja3. Com o envio do Paráclito, “completa a revelação e a culmina e confirma com testemunho divino”4. Os próprios Apóstolos compreenderão mais tarde o sentido das palavras do Senhor que antes do Pentecostes se lhes apresentavam obscuras. “Ele é a alma desta Igreja – ensina Paulo VI -. É Ele quem explica aos fiéis o sentido profundo dos ensinamentos de Jesus e o seu mistério”5.

O Paráclito conduz-nos das primeiras luzes da fé à “inteligência mais profunda da Revelação”6. Mediante o dom do entendimento, concede ao fiel cristão um conhecimento mais profundo dos mistérios revelados, iluminando-lhe a inteligência com uma luz poderosíssima. “Conhecemos esses mistérios há muito tempo; ouvimo-los e até meditamos neles muitas vezes, mas, num dado momento, sacodem o nosso espírito de uma maneira nova, como se até então nunca tivéssemos compreendido a verdade”7. Sob este influxo, a alma adquire uma certeza muito maior das verdades sobrenaturais, que se lhe tornam mais claras, e experimenta uma alegria indescritível, que é antecipação da visão beatífica.

O dom do entendimento permite que a alma participe com facilidade desse olhar de Jesus que tudo penetra e que incita a reverenciar a grandeza de Deus, a dedicar-lhe um afeto filial, a ponderar adequadamente o valor das coisas criadas… “Pouco a pouco, à medida que o amor vai crescendo na alma, a inteligência do homem resplandece mais e mais sob a própria luz de Deus”8 e dá-nos uma grande familiaridade com os mistérios divinos.

Para chegarmos a este conhecimento, não nos bastam as luzes habituais da fé; precisamos de uma especial efusão do Espírito Santo, que recebemos na medida em que correspondemos à graça, começando por purificar o coração. Neste dia do Decenário do Espírito Santo, podemos examinar como são os nossos desejos de purificação, se nos levam especialmente a aproveitar muito bem as graças de cada confissão, a recorrer a ela com periodicidade, a pedir ajuda ao Paráclito para fomentar a contrição e um grande desejo de nos afastarmos de todo o pecado e das faltas deliberadas.

— Concede-se a todos os cristãos, mas o seu desenvolvimento exige que nos purifiquemos.

MEDIANTE O DOM DO ENTENDIMENTO,  O Espírito  Santo faz a alma penetrar de muitas maneiras nos mistérios revelados. De uma forma sobrenatural e portanto gratuita, ensina no íntimo do coração o alcance das verdades mais profundas da fé. “É como se alguém, sem ter aprendido nem trabalhado nada para saber ler, nem mesmo estudado coisa alguma -explica Santa Teresa -, se visse na posse de toda a ciência, sem saber como e donde ttie veio, pois jamais se esforçou sequer por aprender o abecedário. Esta última comparação parece-me explicar em parte este dom celestial, porque, de um momento para outro, a alma se vê tão instruída no mistério da Santíssima Trindade e em outras coisas muito subidas, que não há teólogo com quem não se atreva a discutir sobre a verdade dessas grandezas”9.

O dom do entendimento leva a captar o sentido mais profundo da Sagrada Escritura, a vida da graça, a presença de Cristo em cada sacramento e, de uma maneira real e substancial, na Sagrada Eucaristia. É um dom que confere como que um instinto divino para o que há de sobrenatural no mundo. Ante o olhar daquele que crê, iluminado pelo Espírito, surge um universo totalmente novo. Os mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação, da Redenção, da Igreja, convertem-se em realidades extraordinariamente vivas e atuais, que orientam toda a vida do cristão e influem decisivamente no seu trabalho, na família, nos amigos… Chega-se a ver Deus no meio das tarefas habituais, nos acontecimentos agradáveis ou dolorosos da vida diária.

O caminho para chegarmos à plenitude deste dom é a oração pessoal, em que contemplamos as verdades da fé, bem como a luta, alegre e amorosa, por manter-nos na presença de Deus ao longo do dia. Não se trata de uma ajuda sobrenatural extraordinária, reservada a pessoas muito excepcionais, mas de um dom que o Senhor concede a todos aqueles que queiram ser-lhe fiéis no lugar em que se encontram, santificando as suas alegrias e dores, o seu trabalho e o seu descanso.

— O dom do entendimento e a vida contemplativa.

Para progredir neste caminho de santidade, é necessário fomentar o recolhimento interior, a mortificação dos sentidos internos e externos, a procura diligente da presença de Deus nos acontecimentos e percalços de cada dia.

É preciso sobretudo purificar o coração, pois somente os limpos de coração têm capacidade para ver a Deus,  A impureza, o apego aos bens terrenos, a facilidade em conceder ao corpo todos os seus caprichos embotam a alma para as coisas de Deus. O homem não espiritual não percebe as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura. Nem as pode compreender, porque è segundo o Espírito que se devem ponderar u. Homem espiritual é o cristão que traz o Espírito Santo na sua alma em graça, e tem o pensamento posto em Cristo. A sua vida limpa, sóbria e mortifícada é a melhor preparação para ser digna morada do Espírito, que nele habitará com todos os seus dons.

Quando o Espírito Santo encontra uma alma assim, vai-se apossando dela e conduzindo-a por caminhos de uma oração sempre mais profunda, até que “as palavras se tornam pobres…, e se dá passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia por escapar. Vai-se rumo a Deus, como o ferro atraído pela força do ímã. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto”12.

Mons. Escrivá descreve aqui o caminho que as almas percorrem – no meio das ocupações mais normais da sua vida e seja qual for a sua cultura, profissão, estado, etc. Até chegarem à oração contemplativa. Para muitos, esse caminho parte da consideração freqüente da Santíssima Humanidade do Senhor, a que se chega através da Virgem – passando necessariamente pela Cruz -, e que acaba na Santíssima Trindade. “O coração necessita então de distinguir e adorar cada uma das Pessoas divinas. De certa maneira, o que a alma realiza na vida sobrenatural é uma descoberta semelhante às de uma criaturinha que vai abrindo os olhos à existência. E entretém-se amorosamente com o Pai e com o Filho e com o Espírito Santo; e submete-se facilmente à atividade do Paráclito vivificador, que se nos entrega sem o merecermos: os dons e as virtudes sobrenaturais!” 13

Ao terminarmos a nossa oração, recorremos à Virgem Nossa Senhora, Àquela que teve a plenitude da fé e dos dons do Espírito Santo, e lhe pedimos que nos ensine a tratar e a amar sempre o Paráclito na nossa alma, especialmente neste Decenário, e que não fiquemos a meio do caminho que conduz à santidade a que fomos chamados.

(1) Ex 33, 13; (2) SI 119, 34; (3) cfr. Jo 16, 13; (4) Cone. Vat. II, Const. Dei Verbum, 4; (5) Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 8–XII-1975; (6) Cone. Vat. II, Const. Dei Verbum, 5; (7) A. Riaud, La ac~ ciòn dei Espiritu Santo en Ias almas, Palabra, Madrid, 1985, pág. 72; (8) M. M. Philipon, Los dones dei Espiritu Santo, Palabra, Madrid, 1983, pág. 194; (9) Santa Teresa, Vida, 27, 8-9; (10) cfr. Mt 5, 8; (11) 1 Cor 2, 14; (12) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 296; (13) ib., n. 306.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.

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