O Dom da Fortaleza

 

— O Espírito Santo proporciona à alma a fortaleza necessária para vencer os obstáculos e praticar as virtudes.

 

A HISTÓRIA DO POVO de Israel manifesta a contínua proteção de Deus. A missão dos que deveriam guiá-lo e protegê-lo até chegar à Terra Prometida superava de longe as suas forças e possibilidades. Quando Moisés expõe ao Senhor que se sente incapaz de apresentar-se ao Faraó a fim de libertar os israelitas do Egito, o Senhor diz-lhe: Eu estarei contigo1. Este mesmo auxílio divino é prometido aos Profetas e a todos aqueles a quem Javé confia missões especiais. Nos seus cânticos de ação de graças, esses homens reconhecem sempre que unicamente pela fortaleza que receberam do Alto é que puderam levar a cabo a sua tarefa. Os Salmos não cessam de exaltar a força protetora de Deus: Javé é a rocha de Israel, a sua fortaleza e segurança.

O Senhor promete aos Apóstolos – colunas da Igreja – que serão revestidos pelo Espírito Santo da força do alto2. O Paráclito assistirá a Igreja e cada um dos seus membros até o fim dos séculos.

A virtude sobrenatural da fortaleza, a ajuda específica do Senhor, é imprescindível ao cristão para que possa vencer os obstáculos que se apresentam diariamente na sua luta interior por amar cada dia mais a Deus e cumprir os seus deveres. E esta virtude é aperfeiçoada pelo dom da fortaleza, que torna mais fáceis os atos correspondentes.

À medida que vamos purificando as nossas almas e sendo dóceis à ação da graça, cada um de nós pode dizer, como São Paulo: Tudo posso nAquele que me dá forças. Sob a ação do Espírito Santo, o cristão sente-se capaz de realizar as ações mais arriscadas e de suportar as provas mais duras por amor a Deus. Movido pelo dom da fortaleza, não confia nos seus esforços, pois ninguém melhor do que ele, se é humilde, tem consciência da sua fragilidade e da sua incapacidade para levar avante a tarefa da sua santificação e a missão que o Senhor lhe confia nesta vida; mas ouve o Senhor dizer-lhe, particularmente nos momentos mais difíceis: Eu estarei contigo. E atreve-se a proclamar: Se Deus é por nós, quem será contra nós? […] Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? […] Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores pela virtude d Aquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem os poderes, nem as alturas, nem os abismos, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus Nosso Senhor4. E um grito de fortaleza e de otimismo que se apoia em Deus.

— O Senhor espera de nós heroísmo nas coisas pequenas, no cumprimento diário dos nossos deveres.

Se deixarmos que o Paráclito tome posse da nossa vida, a nossa segurança não terá limites. Compreenderemos então com outra profundidade que o Senhor escolhe o que é fraco, o que aos olhos do mundo é vil e desprezível […], para que ninguém se vanglorie na sua presença5, e que pede aos seus filhos a boa vontade de fazerem tudo o que estiver ao seu alcance, para que Ele realize maravilhas de graça e misericórdia.

Se deixarmos que o Paráclito tome posse da nossa vida, a nossa segurança não terá limites.

A tradição associa o dom da fortaleza à fome e sede de justiça6. “O vivo desejo de servir a Deus apesar de todas as dificuldades é justamente essa fome que o Senhor suscita em nós. Ele a faz nascer e a escuta, conforme foi dito a Daniel: Eu venho para instruir-te, porque tu és um varão de desejos (Dan 9, 23)” 7. Este dom produz na alma dócil ao Espírito Santo uma ânsia sempre crescente de santidade, que não esmorece perante os obstáculos e dificuldades. São Tomás diz que devemos desejar a santidade com tal ímpeto que “nunca nos sintamos satisfeitos nesta vida, como nunca se sente satisfeito o avaro”8.

O exemplo dos santos incita-nos a crescer mais e mais na fidelidade a Deus no meio das nossas obrigações, amando o Senhor tanto mais quanto maiores forem as dificuldades que experimentemos, sem deixar que se avolume o desânimo ante a ausência de progresso nas metas de melhora pessoal. Como escreveu Santa Teresa, “importa muito, e tudo, uma grande e mui determinada determinação de não parar até chegar à fonte, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar; quer se chegue ao fim, quer se morra no caminho ou não se tenha coragem para os trabalhos que nele se encontrem; ainda que o mundo se afunde”9.

A virtude da fortaleza, aperfeiçoada pelo dom do Espírito Santo, não suprime a fraqueza própria da natureza humana, o temor ao perigo, o medo à dor, à fadiga, mas permite superá-los graças ao amor. Precisamente porque ama, o cristão é capaz de enfrentar os maiores riscos, ainda que a sua sensibilidade manifeste repugnância em ir para a frente, não só no começo, mas também ao longo de todo o tempo da prova ou enquanto não tiver alcançado aquilo que ama.

Esta virtude leva ao extremo de sacrificar voluntariamente a vida em testemunho da fé, se o Senhor assim o vier a pedir. O martírio é o ato supremo da fortaleza, e Deus não deixou de pedi-lo a muitos fiéis ao longo da história da Igreja. Os mártires foram — e são — a coroa da Igreja, bem como uma prova mais da sua origem divina e da sua santidade. Cada cristão deve estar disposto a dar a vida por Cristo, se as circunstâncias o exigirem. O Espírito Santo dar-lhe-á então as forças e a coragem necessárias para enfrentar essa prova suprema.

No entanto, o que o Senhor espera de nós é o heroísmo nas pequenas coisas, no cumprimento diário dos nossos deveres. Todos os dias temos necessidade do dom da fortaleza, porque todos os dias temos necessidade de praticar esta virtude para vencer os caprichos pessoais, o egoísmo e a comodidade. Por outro lado, devemos ser firmes num ambiente que muitas vezes se mostrará contrário à doutrina de Jesus Cristo, a fim de vencermos os respeitos humanos e darmos um testemunho simples mas eloqüente do Senhor, como fizeram os Apóstolos.

— Fortaleza na vida ordinária. Meios para facilitar a ação desse dom.

Devemos pedir freqüentemente o dom da fortaleza: para vencer a relutância em cumprir os deveres que custam, para enfrentar os obstáculos normais em qualquer existência, para aceitar com paz e serenidade a doença, para perseverar nas tarefas diárias, para dar continuidade à ação apostólica, para encarar os contratempos com espírito de fé e bom humor.

Devemos pedir este dom para ter essa fortaleza interior que nos ajuda a esquecer-nos de nós mesmos e a estar mais atentos àqueles com quem convivemos, para mortificar o desejo de chamar a atenção, para servir os outros sem que o notem, para vencer a impaciência, para não ficar remoendo os problemas e dificuldades pessoais, para não explodir em queixas perante as contrariedades ou a indisposição física, para mortificar a imaginação afastando os pensamentos inúteis…

Necessitamos de fortaleza para falar de Deus sem medo, para nos comportarmos sempre de modo cristão, ainda que entremos em choque com um ambiente paganizado, para fazer uma correção fraterna quando for preciso… Precisamos de fortaleza para cumprir em toda a linha os nossos deveres: prestando uma ajuda incondicional aos que dependem de nós, exigindo-lhes ao mesmo tempo, com amável firmeza, o cumprimento das suas responsabilidades… O dom da fortaleza converte-se assim no grande meio contra a tibieza, que conduz ao desleixo e ao aburguesamento.

Quando se sabe estar bem perto do Senhor, o dom da fortaleza encontra nas dificuldades umas condições excepcionais para crescer e firmar-se. “As árvores que crescem em lugares sombreados e livres de ventos, enquanto externamente se desenvolvem com aspecto próspero, tornam-se fracas e moles, e facilmente qualquer coisa as fere; mas as árvores que vivem no cume dos montes mais altos, agitadas pelos muitos ventos e constantemente expostas à intempérie e a todas as inclemências, atingidas por fortíssimas tempestades e cobertas por freqüentes neves, tornam-se mais robustas que o ferro” 10.

O Espírito Santo é um Mestre doce e sábio, mas também exigente, porque só dá os seus dons àqueles que estão dispostos a corresponder às suas graças passando pela Cruz.

(1) Gen 3, 12; (2) Lc 24, 49; (3) Fil 4, 13; (4) Rom 8, 31-39; (5) cfr. 1 Cor 1, 27-29; (6) Mt 5, 6; (7) R. Garrigou-Lagrange, Los três edades de Ia vida interior, pág. 594; (8) São Tomás, Comentário sobre São Mateus, 5, 2; (9) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 21, 2; (10) São João Crisóstomo, Homília sobre a glória da tribulação.

Fonte: livro “Falar com Deus”, de Francisco Fernández Carvajal.

 

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